Tremembé e Os Donos do Jogo: quando a espetacularização do crime glamouriza criminosos
- SBC Urgente

- 8 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
*Rômulo Oliveira
As produções audiovisuais sempre buscaram inspiração na realidade — e, cada vez mais, nos seus lados mais sombrios. Nos últimos meses, séries como Tremembé (Prime Video) e Os Donos do Jogo (Netflix) trouxeram novamente ao centro do debate a delicada fronteira entre ficção, entretenimento e ética. Embora ambas sejam obras ficcionais, sua estética, linguagem e ritmo se aproximam do documental, criando um efeito de verossimilhança que mistura o real e o imaginário de maneira quase indistinta.
Em Tremembé, o enredo se passa no famoso presídio paulista que ganhou o apelido de “cadeia dos famosos”. A série recria, com grande realismo, o cotidiano dos internos e o ambiente tenso de um espaço onde cumprem pena pessoas que já foram amplamente expostas pela mídia. Já em Os Donos do Jogo, o foco é o universo do jogo do bicho e das relações entre poder, dinheiro e criminalidade no Rio de Janeiro — uma trama que, mesmo ficcional, reflete práticas e dinâmicas historicamente enraizadas na realidade brasileira.
Ao assistir a produções como essas, é difícil não se impressionar com a qualidade técnica e narrativa. Mas também é impossível ignorar a inquietação que provocam: até que ponto revisitar ou dramatizar crimes e contextos criminosos como forma de entretenimento não contribui para revitimizar pessoas e famílias marcadas por essas histórias? Ao transformar o horror em produto audiovisual, corre-se o risco de transformar vítimas em figurantes e criminosos em protagonistas complexos, carismáticos — às vezes até admirados.
A espetacularização da violência não é fenômeno novo, mas ganha novas dimensões na era do streaming. Aqueles programas policiais caricatos, que durante décadas exploraram o noticiário criminal com gritos, julgamentos morais e exposição de corpos e rostos, agora dão lugar a uma nova forma de abordagem: roteiros sofisticados, atores consagrados e produções de alto orçamento. A violência muda de figurino, mas continua a ser explorada como espetáculo. Muda-se a estética, mantém-se a ética — ou, a ausência de uma.
Do ponto de vista da Criminologia, a Teoria da Aprendizagem Social, desenvolvida pelo psicólogo Albert Bandura, ajuda a compreender os impactos desse tipo de exposição. Segundo o autor, comportamentos — inclusive os criminosos — podem ser aprendidos e reproduzidos por observação e imitação de modelos sociais. Quando a mídia concede notoriedade e visibilidade a personagens que transgridem regras, ela pode, ainda que involuntariamente, estimular a repetição dessas condutas por indivíduos vulneráveis ou em busca de reconhecimento. É o que se denomina Copycat Crime, ou crime de imitação — quando alguém reproduz um ato delituoso após vê-lo amplamente retratado, seja em noticiários, filmes ou séries. O crime, nesse contexto, torna-se uma forma distorcida de alcançar status, visibilidade ou pertencimento.
Assim, ao mesmo tempo em que séries como Tremembé e Os Donos do Jogo despertam interesse e debate, elas também evidenciam o risco de normalizar ou estetizar o desvio. Um exemplo recente dessa banalização é a popularização, nas redes sociais, da expressão “Melhor ser Elize Matsunaga do que virar Eliza Samudio” — usada de forma irônica para sugerir que seria “preferível” reagir violentamente a uma relação abusiva do que tornar-se vítima. A frase, que viralizou em publicações e memes, traduz o modo como tragédias reais podem ser transformadas em linguagem cotidiana, convertendo crimes brutais em slogans de empoderamento distorcido.
A pergunta que resta é: vale, em nome do mais puro entretenimento dos “horrores”, revisitar essas tragédias e transformar criminosos — reais ou inspirados em figuras reais — em protagonistas de luxo?
Se a indústria audiovisual se alimenta da violência, talvez o desafio seja inverter o foco. Por que não exaltar os heróis do cotidiano — anônimos, mas reais — com histórias de superação, solidariedade e afeto que se espalham pelo Brasil e raramente ganham o mesmo holofote?
*Pós-graduado em Ciências Criminais, Perícia e Segurança Pública; Especialista em Comunicação Estratégica e Gestão de Crises.







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